A matemática da felicidade


No alpendre da casa recém construída no Cantinho, João sentou de frente para o nascente e sentiu o ar da tarde no rosto. Era 24 de março de 1996. A mata estava verdinha das chuvas do inverno.

Chupou alguns imbus. Pelo sabor e textura, tentou adivinhar os imbuzeiros de origem. A fruta de cada árvore tem digital única no paladar. João reconhecia.

Contudo, se o paladar ainda estava ativo, a vista e a audição nem tanto. Mas ele ainda podia sentir. E, naquele dia, foi tomado por sensações. A memória lúcida lhe levou até as roças, baixios, veredas, grotas e pedras.

“Aquele imbuzeiro grande ainda existe?”, indagou. “Num tem uma pedrona redonda lá em cima? Ali na entrada foi onde eu cortei uma braúna grande pra fazer um pilão”, contou como se avistasse o local.

Vovô deve ter lembrado da felicidade da mudança para a nova morada. De cada arroba de algodão que fez o sonho da terra própria ser possível, lá na década de 50. Do som da enxada abrindo o chão. Da mata seca estralando debaixo das "alpragatas". Da chuva caindo. Da família reunida no terreiro. Dos filhos que casaram e ganharam o mundo. E dos que ficaram perto.

Numa gravação em áudio que temos desse dia, sua voz grave e cansada soa com notas de contemplação: “Eita... O tanto que eu trabalhei aqui, o tanto que lutei... Oooopa!”. Era o resumo da sua jornada.

O indivíduo só é capaz de saber se é ou não feliz no final da vida. Todo o resto é caminhada. João pensou no começo, vislumbrou o fim e fez suas contas.

Penso que naquele dia de 1996, vovô Pereira sentiu muito orgulho de tudo que fez e conquistou. A sensação gostosa de quem pelejou e, aos trancos e sopapos, mas com otimismo e humor, venceu. Vitória, nesse contexto, significa olhar ao redor e perceber que tudo e todos estão no seu devido lugar. Perceber que é feliz.

Seis dias após essa visita, vovô dormiu e não mais acordou. Ou “acordou morto”, como dizem por aí. Partiu sereno; sem alarde. Virou nuvem de chuva.

Ele foi ao Cantinho apenas se despedir.

João partiu. Porém, suas marcas, de vovó Bilinha e dos filhos ainda estão por toda parte: nas pedras queimadas pelas brocas, no enorme muquem plantado por vovó, no ferro dos bichos, na velha casa, nos troncos tombados e nunca retirados das roças.

As marcas mais fortes, entretanto, não podem ser vistas. Elas estão dentro de nós, descendentes do Cantinho. O amor de João e Bilinha foi repassado a Luís, que nos transmitiu com intensidade redobrada. Suas mãos casadas às de Leleda estão sempre a transformar o lugar. Criando e recriando, tal qual o tempo faz com a gente.

Ir para o Cantinho aos domingos é o nosso mais forte ritual de família. Fortaleza de sossego, é antídoto contra os males da rotina. Lá, o tempo e as coisas têm velocidades diferentes. É onde a gente se desconecta para se conectar uns aos outros. E se recarrega.

Nosso Cantinho de paz, onde somamos pontos para a matemática da felicidade.

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