O beija-flor e seu guardião


Por Rômulo Maia

Sol escondido entre nuvens, adolescentes barulhentos passando no transporte escolar, uma feira de frutas e verduras na calçada do mercado. Um pato e sua fileira de patinhos atravessam a estrada. Motos vão e vêm. Tudo é normalidade no São Bento, zona rural de Pio IX. Ou melhor, quase tudo.

Serafina é a quebra de rotina experimentada pela comunidade nas últimas semanas. Tem uns 10 centímetros de comprimento e pesa algo em torno de 4,5 gramas. É um “quase nada” de pura beleza e inquietação, capaz de atrair curiosidade e cuidados para si e seus filhos.

A Serafina é um beija-flor da espécie besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus). Virou atração na comunidade por não cobrar ingresso para seu espetáculo de vida.

O pássaro escolheu uma árvore baixa, num pé de calçada, para construir seu ninho. O local fica no coração do povoado, de frente para a capela da Igreja Católica. Toda a rotina do São Bento escorre por ali.

“Isso aí é coisa milagrosa! Porque uma coisa dessa no meio da rua, com gente, gato, criança, e não ser destruído... É coisa de Deus”, comenta Manoel de Severo, observando o beija-flor sentado no ninho.

Lucas Bezerra rezava na calçada de casa quando percebeu os primeiros movimentos de Serafina na área. O “zum zum zum” das asas atrapalhou a concentração do jovem. Curioso, largou a oração e foi esquadrinhar nas proximidades. Logo observou que toda aquela movimentação não era à toa: Serafina trabalhava na construção do ninho.

Iniciava-se ali uma relação afetiva entre homem e bicho, com direito a proteção, carinho, comida no bico, orações e leves pontadas de ciúme.

O jovem acompanhou todo o processo: a conclusão do ninho, a postura e o nascimento dos bruguelos. Mal saíram dos ovos, os filhotes também ganharam nomes: Zacarias e Dona Jobilina. Para proteger a família, ele fez uma empanada na árvore, levando sombra aos pequenos. Vez ou outra traz uma colher com garapa de açúcar ou mel para Serafina beber.



Apesar dos mimos, a mãe não para quieta. Ocupa o dia na busca por alimento. Quanto mais Zacarias e Dona Jobilina crescem, mais longas são as jornadas mata à dentro.

Quando José Clediomar e eu chegamos ao São Bento para fotografar a atração, só estavam os filhotes no ninho. “Ela não está, mas deve voltar já”, é Lucas quem grita lá da sua calçada. Aproxima-se e atua como mestre de cerimônia. Explica a rotina no ninho, dá informações, conta sua história com a ave.



Dito e feito. Não demora e lá vem Serafina! Senta num fio, arrodeia por longe, até que encosta e, ainda voando, alimenta os filhotes. Descarrega o papo e some novamente. Demora. Quando retorna, a tarde está quase no fim. Cismada com as visitas estranhas, não quer pousar. Lucas resolve o dilema.

José Clediomar, Rômulo Maia,
Manoel de Severo e Serafina:
um selfie para registrar o encontro
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“Afastem aí!”, orienta. Recuamos. Apenas ele fica. Serafina senta, mas segue inquieta. Lucas se achega e faz um leve cafuné na cabeça do pássaro. A agitação diminui. “Pronto! Agora podem fotografar que ela não voa mais.” E não voou mesmo. Fotografamos o quanto quisemos. Rolou até selfie. O guardião, porém, não aceita sair em nenhum registro. Em tom de ameaça, avisa: “Se tirar foto minha eu processo.”

Homem de fé, Lucas não apenas vigia os beija-flores. Também protege-os com suas orações. Pergunto se reza para os bichos. “Rezo de quebrante as vezes nela”, responde. E conta: “Hoje veio uma mulher aqui, pois quase pira com o beija-flor. Queria levar! Não deixei e quando foi embora fui benzer Serafina e os filhos.”

A preocupação é constante. Após a visita ao São Bento, permaneci em contato virtual com Lucas. Uns dias depois, quase 22h, recebo uma mensagem em tom alarmado: “Me tire uma aflição: cheguei agora da Igreja, quando fui colocar água na árvore que tem o ninho, Serafina não estava.”

“Ela deve estar dormindo fora, porque os filhotes estão muito grandes”, tranquilizei-o sem qualquer certeza do que estava falando. Fui dormir. No outro dia cedinho chega nova mensagem: “Bom dia! Quando acordei de madrugada para rezar, ela tava dando comida às crianças. Graças a Deus!”

Passam os dias, os filhotes crescem e os intervalos de retorno da mãe ao ninho só aumentam. Acende um alerta nos pensamentos do “padrinho”, que manifesta o ciúme em mensagem: “Cá pra nós: a bicha véia [Serafina] parece que tá perdida; só no mundo namorando. Abandonou tudo; vem dar comida fora de hora; tá um desmantelo só.”

Não tarda o dia em que Zacarias e Dona Jobilina completarão a plumagem e alçarão voo pelo mundo. Serafina também vai sumir. É a sina de liberdade que lhes está reservada. Um ciclo que se completa na natureza. Restará um ninho vazio e um Lucas saudoso.

Se está preparado para a despedida? “Meu Deus, nem tinha pensado nisso. Vou ficar com a gastrite atacada direto, porque vai abalar o nervos.”

Só muito chá de hortelã para curar os efeitos dessa saudade.

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