Por Rômulo Maia
escrito em 22 de agosto de 2016
A casa está aparentemente vazia. Meia porta aberta, uns gatos preguiçosos no corredor, ambiente em penumbra. Barulho algum vem lá de dentro. Ao subirmos a calçada e nos achegarmos mais é que percebemos a figura de Antônio Israel.
Caminha lento, curvado, arrastando os pés. A impressão é que carrega o peso do mundo nas costas. Fita os chegantes com o olhar vago, abre a porta, estende a mão, balbucia um cumprimento e posta-se de lado, nos dando passagem.
Donzinha, que mora em frente, vê o movimento e atravessa a estrada. Nos recepciona explicando que os sentidos do pai, aos 83 anos, vivem em descanso. Por isso a displicência na recepção. Antônio, ao lado, já sentado, parece nem estar ali.
Uma voz firme e animada adentra a sala. É Neuza que vem chegando. O vestido florido combina com o rosto rosado e o cabelo branco e fino. “Tava aguando as plantas”, justifica-se, enxugando as mãos na roupa para nos saudar.
“Prazer, Dona Neuza”, respondo, para ser prontamente repreendido: “Não me chame de ‘dona’, que somos parentes.” Minha avó Bilinha era irmã de Maria Odontina, mãe de Neuza. Nas leis do sertão, quando há ligação sanguínea, as formalidades no trato são dispensáveis - mesmo ela tendo 82 anos e, eu, 31.
A rotina de Neuza na fazenda “De trás da serra” é imutável e puxada. De domingo a domingo cuida da casa, das plantas e de Antônio. São casados há 66 anos. “Sem nunca ter brigado”, enfatiza. O segredo da paz? Evitar a guerra. “Quando ele chegava meio agoniado da roça, eu entrava, ia fazer outras coisas. Não demorava pra ele puxar assunto, mexer comigo, perguntar por alguma coisa. A mesma coisa Antônio fazia comigo.”
Em raras ocasiões Neuza deixa o local, situado a menos de 10 km da cidade de Pio IX. Isso desde que a saúde limitou os passos e a lucidez de Antônio. A dedicação é uma deferência ao esforço do companheiro.
Erguida há 51 anos, a casa onde moram é um exemplo do quanto a labuta daquele homem foi pesada. Toda a madeira do teto e das paredes, por exemplo, foi extraída da caatinga por ele. “Antônio saia cedo do dia pro meio do mato. Quando eu ia deixar o almoço, achava ele pela zoada do serrote”, conta Neuza. Olho pra cima e ao redor: troncos enormes sustentam ripas, telhas e paredes. Penso admirado: há um Hércules em cada sertanejo.
Mãe e filha nos convidam para conhecer o pomar, xodó da propriedade. Mamoeiros, bananeiras, limoeiros, mandioca... Tudo vistoso! As plantas são regadas a partir de um poço artesiano cavado há dois anos. Elas recordam o dia em que a água veio à fura na terra. “O jato subia que estralava nas baraúnas”, diz Neuza. Donzinha confirma tudo sorrindo. No rosto de ambas, o semblante de quem fala de algo fantástico. É intensa a ligação entre o povo do semiárido e a água.
Depois das histórias, Donzinha pega uma vara, derruba cinco mamões e divide parte da riqueza delas com Luís, Diogo e eu.
No carro, a caminho de casa, comentamos o quanto dias que terminam assim são valiosos. Impagáveis. Revigorantes.

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