"Tem na bodega de Chico Arrais" é uma homenagem ao velho Francisco de Alencar Maia, o Chico Arrais, e aos bodegueiros do Nordeste. Nesse tipo de comércio antigo encontrava-se de tudo: miudezas, ferragens, compadres e fofoca. Boa leitura!
Por Rômulo Maia de Alencar
Abril de 2016
Um tipo de
comércio antigo,
Quase em vias de extinção,
As bodegas de sortimento
Eram o supermercado do sertão,
Onde o caboco fazia a feira
Deixando seus pouco tostão.
Onde um bodegueiro astuto,
Seguia regra universal:
Vender de tudo e quanto,
De veneno a Sonrisal,
E ter como seus clientes,
O padre, o bêbo e o policial.
Por mais de 40 anos,
Em Pio IX, bem no Centro,
Funcionou de vento em poupa,
Um desses empreendimento:
A bodega de Chico Arrais,
Com ele e o Crisógono dentro.
Quase em vias de extinção,
As bodegas de sortimento
Eram o supermercado do sertão,
Onde o caboco fazia a feira
Deixando seus pouco tostão.
Onde um bodegueiro astuto,
Seguia regra universal:
Vender de tudo e quanto,
De veneno a Sonrisal,
E ter como seus clientes,
O padre, o bêbo e o policial.
Por mais de 40 anos,
Em Pio IX, bem no Centro,
Funcionou de vento em poupa,
Um desses empreendimento:
A bodega de Chico Arrais,
Com ele e o Crisógono dentro.
Do lado da
prefeitura,
Vizinho a casa de Seu Odeto,
Na descida da Sebastião Arrais,
O freguês podia ficar certo,
Que o comércio não fechava,
Era todo tempo aberto.
Da praça Alencar Mota,
O sujeito tinha essa visão:
Uma fachada rosa descascada,
Sem letreiro ou placa de promoção;
Lá dentro? Haja mercadoria!
Pra lá e pra cá do balcão.
Um portão enferrujado,
Desses de enrolar,
Que só subia gemendo
- Podia era lubrificar! -,
Era levantado bem cedo,
Antes do Pio IX acordar.
As mercadorias ficavam
Onde fosse possível botar;
No chão ou nas prateleiras
Outras tinha que empendurar.
Uma bagunça organizada
Onde nada podia faltar.
Na parte pra cá do balcão
Era o comércio mais pesado.
Tinha gibão, corda e panela,
Arreio, lâmina de arado,
Machado, foice e chibanca,
E enxada de corte variado.
Couro de bode e ovelha,
Pra revender pros cortume,
Espalhava catinga e fedor,
Fragrância de azedume.
Um cheiro tão terrível,
Que fazia de inhaca perfume.
Vizinho a casa de Seu Odeto,
Na descida da Sebastião Arrais,
O freguês podia ficar certo,
Que o comércio não fechava,
Era todo tempo aberto.
Da praça Alencar Mota,
O sujeito tinha essa visão:
Uma fachada rosa descascada,
Sem letreiro ou placa de promoção;
Lá dentro? Haja mercadoria!
Pra lá e pra cá do balcão.
Um portão enferrujado,
Desses de enrolar,
Que só subia gemendo
- Podia era lubrificar! -,
Era levantado bem cedo,
Antes do Pio IX acordar.
As mercadorias ficavam
Onde fosse possível botar;
No chão ou nas prateleiras
Outras tinha que empendurar.
Uma bagunça organizada
Onde nada podia faltar.
Na parte pra cá do balcão
Era o comércio mais pesado.
Tinha gibão, corda e panela,
Arreio, lâmina de arado,
Machado, foice e chibanca,
E enxada de corte variado.
Couro de bode e ovelha,
Pra revender pros cortume,
Espalhava catinga e fedor,
Fragrância de azedume.
Um cheiro tão terrível,
Que fazia de inhaca perfume.
O freguês também
encontrava
Carrinho-de-mão e balde,
Buzina pra botar na bicicleta,
Dessas que “fonfonam” sem alarde.
Raio, jandra, cabo de freio,
E também achava os cumpade.
“Tem chovido pra seus lado?”
“Homi, aquilo só fala besteira.”
“Diga aí, babão infiliz?
“A cumade foi na rezadeira?”
“E vocês o que vão querer?”
“Seu Chico, vim fazer a feira.”
O balcão velho atravessado,
A bodega ao meio dividia.
Da portinhola pra lá,
Só o dono e a mercadoria.
O freguês pedia sua lista,
E o Chico tudo trazia.
Carrinho-de-mão e balde,
Buzina pra botar na bicicleta,
Dessas que “fonfonam” sem alarde.
Raio, jandra, cabo de freio,
E também achava os cumpade.
“Tem chovido pra seus lado?”
“Homi, aquilo só fala besteira.”
“Diga aí, babão infiliz?
“A cumade foi na rezadeira?”
“E vocês o que vão querer?”
“Seu Chico, vim fazer a feira.”
O balcão velho atravessado,
A bodega ao meio dividia.
Da portinhola pra lá,
Só o dono e a mercadoria.
O freguês pedia sua lista,
E o Chico tudo trazia.
Sabão em barra,
sabonete,
Colher, concha e barguilha,
Linha de croché e agulha,
Lanterna, foquito e pilha,
Copo, xícara, isqueiro,
E Arroizina pro mingau da filha.
Leite de Rosas e Neutrox,
Naftalina e noz-moscada,
Quiboa, Q-Suco e rapadura,
Minancora pra cara estragada,
Colorau, querosene a granel,
Cachaça na meota ou lacrada.
Caçador e caba valente,
Na bodega se municiava.
Comprava cartucho e pólvora.
Bala e chumbo encontrava.
Espingarda e revólver,
O calibre variava.
Colher, concha e barguilha,
Linha de croché e agulha,
Lanterna, foquito e pilha,
Copo, xícara, isqueiro,
E Arroizina pro mingau da filha.
Leite de Rosas e Neutrox,
Naftalina e noz-moscada,
Quiboa, Q-Suco e rapadura,
Minancora pra cara estragada,
Colorau, querosene a granel,
Cachaça na meota ou lacrada.
Caçador e caba valente,
Na bodega se municiava.
Comprava cartucho e pólvora.
Bala e chumbo encontrava.
Espingarda e revólver,
O calibre variava.
Botão, velcro e
fósforo,
Chinela Japonesa e Tiu-Tiu,
Vara de bambu, baladeira,
Cabo, borracha e funil,
Bola Canarinho e queijo,
Cera de abelha e cantil.
Pro agrado das mulher,
Vendia material de beleza:
Esmalte e perfume Tabú,
E pó compacto Promesa.
“Mulher isso passado na cara,
esconde até essa tua tristeza.”
Pros pipôco do São João,
Bomba, rojão e traque.
Nessa época muito cabinha,
Era vê os hômi do Iraque,
Com seus bolsos explosivos,
Partindo pra um ataque.
Um mostruário de bombons,
Carrossel da alegria infantil,
Girava pra olhos arregalados,
E o pai, num lampejo gentil,
Fazia valer o apelo do filho,
Momento de alegrias mil.
Chico Arrais vendia ainda,
Arroz e goma a granel,
Prego, parafuso e arruela,
Corda de violão e mel,
Potassa, lápis, caderno,
Tintura Sobral e carretel.
Cigarros de rótulos sortidos:
Derby, Free, U.S., Marlboro,
Uns que queimavam rápido,
Outros mais duradouro.
Os pacotes num mostruário
Com a foto dum caba num touro.
Chinela Japonesa e Tiu-Tiu,
Vara de bambu, baladeira,
Cabo, borracha e funil,
Bola Canarinho e queijo,
Cera de abelha e cantil.
Pro agrado das mulher,
Vendia material de beleza:
Esmalte e perfume Tabú,
E pó compacto Promesa.
“Mulher isso passado na cara,
esconde até essa tua tristeza.”
Pros pipôco do São João,
Bomba, rojão e traque.
Nessa época muito cabinha,
Era vê os hômi do Iraque,
Com seus bolsos explosivos,
Partindo pra um ataque.
Um mostruário de bombons,
Carrossel da alegria infantil,
Girava pra olhos arregalados,
E o pai, num lampejo gentil,
Fazia valer o apelo do filho,
Momento de alegrias mil.
Chico Arrais vendia ainda,
Arroz e goma a granel,
Prego, parafuso e arruela,
Corda de violão e mel,
Potassa, lápis, caderno,
Tintura Sobral e carretel.
Cigarros de rótulos sortidos:
Derby, Free, U.S., Marlboro,
Uns que queimavam rápido,
Outros mais duradouro.
Os pacotes num mostruário
Com a foto dum caba num touro.
Pro sujeito mais antigo,
De gosto tradicional,
Fumo de pacote ou no rolo,
Pro cigarro artesanal.
Aceso, era vê um braseiro
E a catinga sem igual.
Sobre o balcão, a balança,
Justiça do bodegueiro.
Seus pratos em equilíbrio,
Peso sempre verdadeiro.
A medida não falhava:
“Eita véi Chico certeiro!”
Pro criador, chocalho.
Pro agricultor, semente.
Pro piadista, desaforo.
Pro assanhado, pente.
Pro gripado, Cibalena.
E o esperto? Nem tente.
Porque o bodegueiro, rapaz,
Tem dois olhos de cancão,
É esperto, vivo, ligeiro,
Bom pra pegar ladrão.
Aconteceu e foi muito,
Num foi uma ou duas vez não.
Certa vez ao flagrar
Um cabra titubiando,
O Chico arrodeou o balcão,
E foi logo lhe tomando,
A colher de pedreiro
Que levava debaixo dos pano.
“Devolva o que é meu,
Cabra ladrão, safado.”
“Seu Chico, eu ia pagar.
O senhor tá enganado.”
A resposta foi a colher
Bem nas pá do condenado.
Cabide da bodega,
Um caderno de anotação,
Guardava as pindura,
Os “Venda! Tem erro não”,
Os “pago mês que vem”,
Os “anote na de meu irmão”.
Bom pagador tinha crédito,
O mau, dando no saco,
Ia parar com dívida e nome,
Na “Lista dos Veaco”.
Esse, compravam nunca mais!
Podia era armar barraco.
Um preguiçoso ventilador,
Soprava vento lá do teto.
Uma TV amarela e miúda:
“É o Pelé ou o Rei Roberto?”
E dois tamboretes de couro,
Pro descanso tão incerto.
Porque na rotina da bodega,
O vendedor fazia de tudo:
Carregava saco, varria chão,
Aprendia a língua dos mudo,
Dava carreira em doido,
Gastava graça com sisudo.
Filho de Seu Chico Arrais,
No dia-a-dia os dois junto,
Crisógono teve o santo nome,
Adulterado pelos matuto.
Crisosto, Crisógo, Crisovo,
Viraram seus nomes substituto.
A velha gaveta de madeira,
Abria a boca pro dinheiro,
Alegria de netos e netas,
Sustento de um time inteiro.
Onze filhos bem criados,
Onze joias do bodegueiro.
De gosto tradicional,
Fumo de pacote ou no rolo,
Pro cigarro artesanal.
Aceso, era vê um braseiro
E a catinga sem igual.
Sobre o balcão, a balança,
Justiça do bodegueiro.
Seus pratos em equilíbrio,
Peso sempre verdadeiro.
A medida não falhava:
“Eita véi Chico certeiro!”
Pro criador, chocalho.
Pro agricultor, semente.
Pro piadista, desaforo.
Pro assanhado, pente.
Pro gripado, Cibalena.
E o esperto? Nem tente.
Porque o bodegueiro, rapaz,
Tem dois olhos de cancão,
É esperto, vivo, ligeiro,
Bom pra pegar ladrão.
Aconteceu e foi muito,
Num foi uma ou duas vez não.
Certa vez ao flagrar
Um cabra titubiando,
O Chico arrodeou o balcão,
E foi logo lhe tomando,
A colher de pedreiro
Que levava debaixo dos pano.
“Devolva o que é meu,
Cabra ladrão, safado.”
“Seu Chico, eu ia pagar.
O senhor tá enganado.”
A resposta foi a colher
Bem nas pá do condenado.
Cabide da bodega,
Um caderno de anotação,
Guardava as pindura,
Os “Venda! Tem erro não”,
Os “pago mês que vem”,
Os “anote na de meu irmão”.
Bom pagador tinha crédito,
O mau, dando no saco,
Ia parar com dívida e nome,
Na “Lista dos Veaco”.
Esse, compravam nunca mais!
Podia era armar barraco.
Um preguiçoso ventilador,
Soprava vento lá do teto.
Uma TV amarela e miúda:
“É o Pelé ou o Rei Roberto?”
E dois tamboretes de couro,
Pro descanso tão incerto.
Porque na rotina da bodega,
O vendedor fazia de tudo:
Carregava saco, varria chão,
Aprendia a língua dos mudo,
Dava carreira em doido,
Gastava graça com sisudo.
Filho de Seu Chico Arrais,
No dia-a-dia os dois junto,
Crisógono teve o santo nome,
Adulterado pelos matuto.
Crisosto, Crisógo, Crisovo,
Viraram seus nomes substituto.
A velha gaveta de madeira,
Abria a boca pro dinheiro,
Alegria de netos e netas,
Sustento de um time inteiro.
Onze filhos bem criados,
Onze joias do bodegueiro.
O tempo que faz nascer,
Também faz as coisa sumir.
E um dia chegou a hora,
Do portão não mais subir.
De Chico Arrais ficar em casa,
Do Crisógono seu rumo seguir.
A bodega as portas fechou,
Há tempos ficou no passado.
Mas ainda hoje se escuta
Um antigo tagarelado
Quando se quer comprar
E o comércio está fechado:
“Comércio em dia santo,
Não abre nem indo atrás.
Isso só acontece porque,
No Pio IX não existe mais,
Uma bodega que não fecha,
Que nem a do Chico Arrais.”

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