Publicado na REVISTA TERRA QUERIDA

“Vixi. Melhor não tem igual.”
Rômulo Maia


Nas bandas de cá do Brasil, no meio de campo nordestino, vive um povo batizado como piauiense. Nascido com os pés na terra seca, falando diferentes sotaques, com cheiro de mato nas ventas, berro de cabra nas oiça e um mundão clareado pelo sol na frente dos olhos.

Via de regra essa gente cresce correndo por ruas de pedra. Em cidadezinhas com suas igrejas de padres mandões, políticos pouco estudados, onde vizinhos se conhecem pelo nome e proseiam toda noite, cada qual sentado em sua calçada.

O povo daqui aprende cedo que brincadeira boa é com uma ruma de outros cabinhas. Pião, bila, papagaio, pega ladrão, siscondê, rumanim-rumanim. A "siriguela" daquele vizinho entojado? “Vixi. Melhor não tem igual.” E lá se vai a mundiça, depenar o alheio sem pedir licença.

Piauiense legítimo descobre cedinho a mornura do leite mugido, a maciez do queijo tirado nesse instante do tacho e o desejo de comer coalhada. Pode ser com soro ou escorrida. Tendo rapa de rapadura, tanto faz.

Costumes de antigamente? Ainda guarda aos montes. Pé de peão-roxo plantado no terreiro de casa afasta qualquer mal olhado. O neném adoeceu? “É quebranto. Leve na rezadeira.” Arruda é a planta da sorte. Chá de olho de goiabeira cura dor de barriga. E um responso bem feito descobre qualquer mal feito.

Sintonizado no mundo, o sujeito natural do Piauí aderiu às tendências. Conheceu as modernidades e aprovou. Vestido na indumentária de couro, monta na motoca de 150 cilindradas e vai pra roça tanger o gado. Quer dar um recado? “Menino, cão, onde tu largou meu celular?”

Mas há coisas que não mudam. Castigado a maior parte do ano pelo sol, o piauiense ainda sabe admirar a beleza de uma nuvem amojada de água. Chuva, no Piauí, é a senha que a felicidade espera pra chegar. Quando chove onde não costuma chover, balde escancara a boca debaixo da biqueira e a meninada corre em alvoroço pelas ruas encharcadas. E então o cheiro de terra molhada invade as casas e a esperança de um inverno de fartura se renova.

O povo do Piauí é humilde, cheio de fé e pouco fobento. Nesse quinhão de Nordeste, ninguém é de viver falando das suas qualidades. Nem é falta de orgulho. Tá mais para escassez de vaidade. Agora mexa... Um “a” fora do lugar pode ser o bastante para enfezar um desses filhos do sol do equador. Não é, Marauê? Zottolo?

Tão diferente, caloroso, acolhedor, o piauiense é o principal motivo para se amar o Piauí. Uma gente forte. Dura feito tronco de aroeira. Que não cansa nem descansa. Persiste. Vive! E peleja sol a sol na labuta por dias melhores.



Rômulo Maia
Jornalista

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