Saudade todo dia

Por Rômulo Maia - em 20/05/2010

Tia Donta foi os braços e as pernas de vovó Bilinha quando o cansaço dos dias se achegou. Foi a visão de vovô Pereira quando o nevoeiro da idade sentou seu véu.

Foi professora. Dona de casa. Fiel à igreja e ao que ela acreditava.

Tia Donta nunca casou ou teve filhos. Mas foi mãe e pai. E QUE PAI! E QUE MÃE! Mentira? Lelita, Layane e Layara podem me ajudar a provar que não.

Tia Donta era o otimismo na baixa estima. Tanto que nesses derradeiros dias nunca falou em subir ao rol dos bons. Queria ficar mais. Queria viver mais. Ela gostava de viver. Tinha gosto de viver.

Gostava de conversar. De ter a gente na sala de casa, contando histórias, lendo o que considerava interessante, destrinchando o parentesco do povo. “Fulano, que era filho de sicrano, neto de beltrano, que hoje mora em num sei onde...” Eu me perdia, mas era impressionante como ela lembrava de tanta coisa.

Tia Donta era a organização no meio da confusão. Tudo muito bem traçado, muito bem planejado, com dia e hora para terminar. E anotado no caderninho. Aqueles dois olhos intensamente azuis eram convites para um mergulho em águas tranqüilas, seguras.

Como era engraçado aquela tia com mais de 60 anos, criada com toda a rigidez de uma sociedade machista, achar normal quando os sobrinhos chegavam da capital com brinco na orelha. “Ah meu fí, eu sou moderna”, gostava de dizer.

Dos nove filhos de João Pereira, Tia Donta foi a mais presente na casa dos sobrinhos e irmãos. Viajou um bocado para rever a parentada espalhada pelo Brasil. E no dia do aniversário de qualquer um, era a ligação certa. E fazia tudo isso porque gostava. Porque valorizava o SER e o TER família... Uma lição que precisamos pôr em prática.

E Tia Donta foi tudo isso que eu falei por ter uma simples qualidade. Era uma pessoa de bem. B – E – M. Bem! Três letras apenas. Palavrinha simples, curta, mas que, nos dias estranhos em que vivemos, onde ninguém vê o do lado como igual, onde somos piores ou melhores, mais ou menos bonitos, tem um sentido difícil de traduzir.

Assim como é difícil resumir Tia Donta apena numa folha de papel. Não dá! Assim como é complicado traduzir nossos sentimentos em palavras.

Se o poeta estiver certo, “o prazer de quem tem saudade, é saudade todo dia”. Então que essa nossa saudade seja carregada de boas lembranças. Para sempre! É assim que ela gostaria que fosse.

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